Quarentena: fazendo do limão uma limonada

O novo coronavírus chegou ao Brasil e vem mostrando toda a sua agressividade. Embora os idosos sejam o maior grupo afetado, o vírus mostrou que não respeita idade e espalha-se com enorme rapidez. É invisível aos nossos olhos, um inimigo inodoro, incolor e impalpável, porém suas consequências são bastante evidentes e desastrosas.

Um conjunto de complicações orgânicas pode ocorrer no corpo humano, podendo ser muito grave quando atinge os pulmões, causando pneumonia, devido ao grande processo de inflamação que se instala no local e muita falta de ar. Nesses casos, é necessário o uso dos respiradores artificiais – as máquinas mais preciosas do momento – para a manutenção da vida. E haja estrutura emocional para dar conta do medo, das angústias e do risco de morte daquelas pessoas que estão passando por esses momentos.

No setor de saúde, providências vêm sendo adotadas na ampliação de espaços de atendimento, recursos humanos, aparelhagem eletrônica, equipamentos de proteção individual (EPIs), medicamentos e outros recursos no tratamento dos pacientes.

Como atitude de prevenção à disseminação do vírus, foi determinada a quarentena, enfatizando que as pessoas ficassem em suas casas, permanecendo em atividade somente os serviços essenciais. Por força dessa crise, a família voltou a reunir-se e conviver diariamente por várias horas, o que, possivelmente, será por prazo longo. Numa apreciação inicial, dentro do contexto social, um ganho valioso para o desenvolvimento das crianças, já que pais e filhos voltaram a ter contato próximo e frequente.

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Novo padrão de convivência familiar

Trata-se de um novo padrão de convivência familiar estabelecido de modo rápido, sem ter havido qualquer planejamento prévio. Como, então, dar conta das atividades de cuidados da casa diariamente, prover alimentos e prepará-los, administrar o orçamento (entradas e saídas) e cuidar também dos filhos? Como lidar com a ansiedade e insegurança geradas pela Covid-19 não só na própria casa, mas também nos avós e outros parentes em condição de risco? E ainda, como lidar com as crianças vivendo continuamente no mesmo ambiente, dia após dia, distantes de outros parentes e amigos?

É natural que o nível de ansiedade aumente devido a essa situação inusitada. O desejado é que esse convívio pouco a pouco se harmonize, com opções diversas de interesses individuais e/ou mútuos.

No entanto, o que estamos tomando consciência é que esse estado de isolamento não tem duração prevista e vem sendo ampliado sucessivamente de acordo com a evolução da doença. O grupo familiar continuará em quarentena e demandará condições emocionais e de criatividade para suportá-la.

Como lidar com o estresse que se acentua, inicialmente pela necessidade de estar nesta nova situação de isolamento que se alonga, para depois ser um estresse chamado tóxico (ansiedade excessiva e continuada), no qual poderão se agregar alterações no aprendizado, no comportamento e também igualmente orgânicas, trazendo prejuízos tanto para as crianças como para os adultos?

A produção de hormônios do estresse – como a adrenalina e o cortisol – mostra-se exagerada, levando ao aumento dos batimentos cardíacos, hipertensão arterial, que quando prolongada, é capaz de alterar a estrutura e funções cerebrais, gerando prejuízos no processo de desenvolvimento, mais especificamente das crianças. Mesmo não tendo Covid-19, o prejuízo funcional poderá ser considerável.

Organize uma nova rotina

Se não houve planejamento para organizar as novas atividades diárias da família, não seria hora de estabelecê-lo e tirar proveito da situação? Com a mudança recente das rotinas, decorrente do isolamento social, o novo dia a dia necessitará ser repensado: tomando o modelo empresarial, é uma questão de ajustes da gestão familiar.

Como sugestão, fazer uma programação diária e estabelecer por escrito as atividades desde o período da manhã até o final do dia, definindo e limitando programas dos pais com os filhos, outros em que os filhos farão independentemente e pai e mãe poderão ocupar-se com interesses próprios ou trabalhos profissionais online, havendo um respeito mútuo às prévias combinações da programação. As variações seriam introduzidas de acordo com os gostos e aptidões de cada família.  Assim, ao mesmo tempo, ficarão todos interessados, ocupados e usufruindo de momentos para divertir-se e tranquilizar-se. Dessa forma, inclusive os pais, estarão incentivando e construindo a sua individualidade e autonomia e também a de seus filhos.

É bom lembrar: lidar com a realidade é um atributo do desenvolvimento emocional da criança. Torna-se essencial que reconheçam que a realidade que temos no momento é esta, gostemos ou não, e é com ela que teremos que aprender a lidar com a experiência que nos impõe.

Pode ser estressante, difícil, complexo, mas a situação poderá ser revertida em uma melhoria para toda a família em termos de entrosamento, conhecimento mútuo, como lidar com mudanças, como tolerar frustrações.

Como diz a sabedoria popular, “faça do limão uma limonada”. Dessa forma, pode-se minimizar os contras e potencializar os prós, “tirando proveito de um mau negócio”.

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Relator:
Dr. Saul Cypel
Departamento Científico de Neurologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Grupo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo


Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.


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