Crianças com autismo e isolamento social

Como sabemos, as crianças com autismo não se encontram no grupo de risco da Covid-19, mas as consequências advindas do isolamento social ao qual estamos todos submetidos vão se fazer sentir mais intensamente nessas crianças e seus familiares.

Todas as famílias estão precisando se adaptar a essa nova realidade: ausência da rotina a que estavam acostumados, mudança de hábitos, busca de novas alternativas, aumento da capacidade de tolerar frustrações e incertezas. Se nada disso é fácil para todos nós, para as crianças com autismo e seus pais pode representar um desafio maior ainda.

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Essas crianças têm muita dificuldade em lidar com o que é novo e diferente, com o que foge à sua sensação de controle. Muitas delas não se comunicam verbalmente nem brincam e o fato de serem submetidas a grandes mudanças de ritmo e rotina pode fazer emergir comportamentos agressivos e outros que já haviam sido abandonados. Isso acarreta uma dificuldade maior ainda para os pais que agora precisam permanecer em casa, muitos em home office e sem a rede de apoio terapêutica com a qual contavam.

Vale sempre lembrar que existe, em qualquer situação, a possibilidade de crescimento e aprendizado. Quem sabe esta não é uma oportunidade para conhecer melhor seu filho(a), sentir-se mais próximo e, também, descobrir-se capaz de acolher e aprender muito com ele? Trabalhando há anos com crianças dentro do espectro autista, eles têm me ensinado muito sobre a vida.

O que poderíamos sugerir que se levasse em consideração no acompanhamento de seus filhos com autismo?

Primeiro, ainda que o uso da tecnologia seja necessário e inevitável em certos momentos, é importante a utilização com parcimônia, sem exagero, pois sabemos que o excesso no uso de celulares, tablets e televisão favorece o isolamento autístico e o contato com um mundo bidimensional e não compartilhável. Além disso, gera uma sobrecarga de excitação que se reflete em agitação e insônia para muitas dessas crianças.

Em segundo lugar, manter a rotina: ela é importante para seus filhos, assim como para todos nós, pois ela é organizadora e permite a sensação de segurança. Por outro lado, estabelecer uma rotina não significa inflexibilidade, nem comportamentos totalmente mecânicos, preestabelecidos, pois se assim o fizermos corremos o risco de fortalecer as manobras autísticas e os comportamentos rígidos.

Em terceiro, assim como com qualquer criança, precisamos estar atentos às emoções que essa situação inusitada está gerando e conversar com elas sobre isso. Poder nomear seus medos, sua raiva, seu desconforto, porque ainda que as crianças com autismo não falem, ou não demonstrem seus sentimentos, elas sentem e sofrem, assim como todos nós.

Enfim, mesmo que o comportamento das crianças com autismo seja, muitas vezes, estereotipado e rígido, é nossa função é trazê-las para o mundo compartilhável. Oferecermos a possibilidade de uma nova experiência, de usarmos nossa criatividade para ajudá-las a vivenciar outras situações. Podem ter certeza, vocês irão se surpreender com elas e com suas potencialidades ainda desconhecidas.   

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Relatora:
Dra. Fátima M. Vieira Batistelli
Membro do Departamento Científico de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo


Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.


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