Unboxing: motivando o consumismo infantil?

Unboxing: que mania é essa?

Para muitas pessoas este termo era desconhecido até entrar para o dicionário Oxford e ser definido como: “ato ou instância de remover um produto recém-adquirido de sua embalagem e examinar suas características, normalmente quando filmado e compartilhado em um site de mídia social”. A prática do unboxing vem ganhando visibilidade com os YouTubers mirins, ou “embaixadores das marcas”, que abrem os brinquedos e os avaliam em seus vídeos.

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Estes vídeos podem afetar as crianças?

Ao observar uma caixa de presente ser aberta, a criança tem áreas do cérebro ativadas, com liberação de dopamina, conhecida como o “neurotransmissor do prazer”, relacionada ao comportamento, motivação e recompensa. Assim, ao assistir estes vídeos ela acaba desenvolvendo um desejo muito forte para ter aquele brinquedo em particular.

O apelo é evidente: forma-se uma conexão entre a criança, realmente interessada em ter os brinquedos, e seus pares, assistindo-os apresentar em vídeo os objetos de seus desejos. Assim a diversão e o interesse ficam ainda maiores. Esta mensagem persuasiva faz a ligação direta que só ao “ter” (consumismo) vai ser feliz.

Estes vídeos acabam sendo anúncios disfarçados ou entretenimento?

Em entrevista ao site da BBC Brasil, Guilherme Perisse, advogado do Projeto Prioridade Absoluta, do Instituto Alana, alerta que essa é uma propaganda disfarçada, uma vez que muitos produtos são enviados pelos fabricantes e os YouTubers fazem a publicidade deles. Segundo ele, os vídeos ferem os artigos 36 e 37 do Código do Consumidor, que dizem que a publicidade deve ser veiculada de forma a permitir a fácil e imediata identificação e é abusiva quando se aproveita da deficiência de julgamento e experiência da criança.

Essa propaganda disfarçada pode até não ser o objetivo da criança que faz o vídeo no YouTube, mas é fato que fabricantes de brinquedos patrocinam canais de vídeos e fornecem a eles as últimas novidades. Propagandas de TV também estimulam as crianças a querer o que está sendo anunciado, mas esses vídeos acabam manipulando-as de forma muito mais óbvia, sendo uma forma clara de publicidade dirigida a elas e incentivando o consumismo infantil.

E o contraponto?

Os vídeos de YouTube são mais do que simplesmente abrir caixas de brinquedos. É importante saber qual a influência que a publicidade nesse formato exerce sobre as crianças pequenas.

Em entrevista à ABC Rabio, a psicóloga e neurocientista australiana Charlotte Keating afirma que estes vídeos podem apresentar os brinquedos de maneira atraente e não necessariamente prejudicial, podendo fornecer informações de produtos úteis para os pais, que poderão ver o que o brinquedo realmente é antes de adquiri-lo.

Segundo Jackie Marsh, da Escola de Educação da Universidade de Sheffield (Reino Unido), não podemos ignorar que as práticas culturais de jogos e alfabetização estão hoje incorporadas no mundo digital e as crianças muitas vezes usam brinquedos físicos e depois jogam com aplicativos (relacionados aos mesmos brinquedos) ou vice-versa, existindo uma grande interface entre online e offline. À primeira vista, pode parecer que estes vídeos fomentam o consumismo nas crianças de hoje, mas as explicações para esse fenômeno podem ultrapassar a ênfase no mercado.

Assim sendo, seguem-se alguns motivos que devem ser estudados para essa mania recente de vídeos: apresentam brinquedos e artefatos que são de grande interesse para as crianças, que podem até já possuir alguns deles, portanto o unboxing pode representar a internet “direcionada por interesses”; podem refletir algumas atividades e paixões e ajudar nas atividades de grupos com afinidades; e, finalmente, essa poderia ser uma instância da criança que aprecia assistir a outras abrindo presentes, mas não necessariamente quer comprar ou ganhar o brinquedo.

As crianças devem assistir a esses vídeos?

Tudo que está online deve ser avaliado e assistido junto com a criança. O conteúdo do vídeo ou filme pode ser utilizado para estimular a imaginação e para poder usar seus brinquedos de formas diferentes. Mas nada substitui a mãe ou pai interagindo com seu filho, transmitindo conteúdos que promovam comunicação, criatividade e imaginação e também ajudando na resolução de problemas, como acontece ao ler ou contar uma história, ao utilizar jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, jogo da memória, blocos etc. Como as crianças são muito curiosas e adoram surpresas, adivinhar o que está dentro de uma caixa já pode ser muito divertido – e essa brincadeira não precisa ser feita assistindo ao unboxing. Acima de tudo, os pais devem entender e participar da vida contemporânea de seus filhos.

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Relatora:
Dra. Renata D. Waksman
Membro do Departamento Científico de Segurança da SPSP.

Publicado em: 7/05/2018.

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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