Rotavírus: Qual o tratamento? Quais os riscos da vacina?

dreamstime_xs_67444487O Rotavírus (RV) é a causa mais comum de diarreia grave na infância em todo o mundo. Nos países em desenvolvimento, particularmente, estima-se que as gastroenterites associadas a esses agentes virais determinem 600.000 a 870.000 mortes a cada ano no mundo. A infecção por RV é universal e se presume que quase todas as crianças serão infectadas pelo menos uma vez até os cinco anos de idade. O Brasil foi o primeiro país a incluir a vacina no seu programa de imunização em março de 2006, uma vez que o RV é responsável por cerca de 43% das hospitalizações por diarreia nesta idade.

Principais fatos relacionados ao RV
1. O RV ocorre em todo o mundo. A prevalência do tipo de vírus varia de acordo com a área geográfica, por isso alguns tipos não incluídos nas vacinas podem ocorrer em certas partes do mundo. Apesar da ocorrência do RV em não humanos, não existe transmissão do vírus de animal para humanos.
2. As taxas mais elevadas de transmissão da doença ocorrem entre lactentes e a maioria das crianças se infectam antes dos cinco anos. Os adultos também podem ser infectados, mas com menor gravidade.
3. O reservatório natural do RV é o sistema digestório e fezes infectadas. O RV é muito estável e pode permanecer vivo no ambiente por semanas ou meses.
4. A transmissão do RV ocorre pela via fecal-oral, tanto por contato pessoal como através de objetos, brinquedos e superfícies contaminadas. Assim, considerando que o vírus é estável no meio ambiente, a transmissão pode ocorrer através da ingestão de água e alimentos contaminados.
5. Período de contágio: ocorre prevalentemente no outono e no inverno, nas regiões de clima temperado. Já nas regiões de clima tropical não existe esta sazonalidade.
6. Transmissibilidades: o RV é altamente contagioso como se evidencia pela infecção quase universal na faixa pediátrica. Até os cinco anos quase todas as crianças apresentarão pelo menos um episódio de infecção.
7. Pessoas infectadas apresentam uma grande quantidade do vírus nas fezes a partir de dois até 10 dias após o início dos sintomas. Em imunodeprimidos, o RV pode persistir nas fezes por um período de até 30 dias.

Quadro clínico e tratamento
A infecção se caracteriza por vômitos e diarreia aquosa durante três a oito dias. Frequentemente os vômitos antecedem o aparecimento da diarreia e também é comum o paciente apresentar febre e dor abdominal. Outros sintomas incluem a perda de apetite e a desidratação. Nas crianças, a enfermidade é de resolução espontânea e dura entre três e cinco dias. O tratamento consiste principalmente em terapia de reidratação oral para prevenir a desidratação. Aproximadamente uma em cada 70 crianças com a doença por Rotavírus necessitará ser hospitalizada para hidratação por via venosa.

Prevenção
Medidas de higiene são importantes para interromper a transmissão do Rotavírus. Solução de álcool a 70% e outros desinfetantes inibem a transmissão do RV através de objetos contaminados.
1. Lave as mãos cuidadosamente e com frequência, especialmente depois de usar o banheiro e de trocar as fraldas das crianças, antes das refeições e quando for preparar os alimentos.
2. Lave bem e deixe mergulhados em solução desinfetante frutas e legumes que vão ser ingeridos crus.

Vacinas disponíveis
O Brasil foi o primeiro país a incluir a vacina no seu programa de imunização em março de 2006, uma vez que o RV é responsável por cerca de 43% das hospitalizações por diarreia nesta idade. A primeira vacina para Rotavírus RV foi derivada do tipo de vírus proveniente de macaco Rhesus. Apesar de esta vacina prevenir diarreia por RV, ela foi retirada do mercado um ano após sua introdução pela associação com um quadro de invaginação intestinal (o intestino dobra para dentro de si mesmo, causando um quadro de dor abdominal, vômitos, aumento do abdome e sangramento, que necessita ser tratado rapidamente). Essa reação era relacionada à idade inicial da aplicação da vacina RV. Assim, mudou-se essa faixa e existe uma idade limite para o seu início (ver Calendário Oficial de vacinação do Ministério da Saúde).

No entanto, as vacinas atuais são diferentes da vacina inicial. Existia a ideia de que o risco de invaginação intestinal se correlacionava com a idade de início da vacinação, por isso existe uma idade limite para o seu início para as duas vacinas disponíveis.
Existem no momento duas vacinas licenciadas para RV, as duas com proteção similar:

Rotavírus monovalente (Rotarix) – disponível na rede pública
• Vacina de vírus vivo oral e composta de um único tipo de um vírus vivo atenuado humano. Ela é a utilizada no calendário nacional de imunização e está disponível gratuitamente nos centros de saúde.
• Ela é aplicada em duas doses com intervalo mínimo entre quatro semanas
• Primeira dose aos dois meses (um mês e 15 dias, até no máximo três meses e 15 dias) Segunda dose aos quatro meses (três meses e 15 dias, até no máximo sete meses e 29 dias).

Rotavírus pentavalente – somente na rede particular
• A RV5 contém cinco tipos do vírus de RV, desenvolvidos a partir dos subtipos de vírus humana e bovina.
• Ela é aplicada em três doses: dois, quatro e seis meses, com intervalo mínimo de quatro semanas.
• Primeira dose deverá ser administrada até no máximo três meses e quinze dias e a Terceira dose até sete meses e 29 dias.

Segurança da vacina
Devido ao histórico da vacina, vários estudos avaliaram sua segurança, principalmente relacionados a presença ou não de invaginação intestinal em crianças que receberam a vacina.

Antes do licenciamento da vacina, foi feito grande estudo, com o objetivo de comprovar a segurança da vacina Rotarix. O efeito adverso mais relatado relacionado com a vacinação é irritabilidade, além de febre, diarreia e vômitos, que são todos autolimitados. Além disso, existe a possibilidade de sangue nas fezes, mas que geralmente se resolve espontaneamente. Não há nenhum relato de associação de vacina com alergia à proteína do leite de vaca.

Em 2011, um outro mostrou um aumento dos casos de invaginação intestinal após a introdução da vacina monovalente. Por outro lado, ela preveniu em torno de 80.000 hospitalizações e 1.300 mortes a cada ano nos dois países, o que reafirma o enorme benefício versus o risco de invaginação intestinal ou morte nos vacinados.

A vacina para Rotavírus se mostrou eficaz na prevenção de diarreia aguda no Brasil, levando a um menor número de hospitalizações após o seu início. Dessa forma, em relação aos eventos adversos, o benefício da vacinação supera os riscos.

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Relator:
Dr. Eitan N. Berezin

Departamento Científico de Infectologia da SPSP

Publicado em 17/08/2016.
photo credit: © Sherryyates | Dreamstime.com – Rotavirus Vaccine Vial Photo

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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