Precisamos falar de prevenção do uso de drogas

Já faz algum tempo temos enfatizado no projeto de prevenção do uso de drogas lícitas e ilícitas do Dr. Bartô (www.drbarto.com.br) a necessidade de discutir com os jovens os males tanto das drogas lícitas quanto das ilícitas e não nos limitarmos ao debate sobre legalização e proibição de certas drogas. O caso da maconha é, certamente, o mais emblemático. Se a legalização da maconha tem estado em pauta em tempos recentes, dada a experiência uruguaia, a prevenção maciça, como fazemos com o tabaco e o álcool, não parece estar em nos nossos radares. Este é certamente um erro, pois os debates se completam.

HansMartinPaul | Pixabay

Recentemente estive em uma escola de São Paulo conversando com três turmas do ensino médio. Perguntei aos 100 alunos quem tinha ao menos um avô ou avó que fumava e algo como 90% deles levantou as mãos. Perguntei quem tem pais que fumam ou fumavam e 40% dos alunos ergueram as mãos. E finalmente quem tinha irmãos mais velhos que fumavam e menos de 10% levantou as mãos.

Perguntei se algum deles tinha dúvida de que o cigarro fazia mal e ninguém ergueu a mão. Perguntei, então, por que eles achavam que seus avós fumavam e, muito perspicazes, os alunos deram as seguintes respostas:
• Porque fumar era chique e sexy
• Porque o cigarro era considerado charmoso
• Porque o cigarro tinha glamour
• Porque fumar dá prazer
• Porque fumar acalma
• Porque o cigarro era uma forma de se socializar
• Porque a maioria das pessoas fumava
• Porque achavam que tabaco não viciava
• Porque não conheciam os problemas de saúde causados pelo cigarro.

Perguntei então se sabiam porque o jovem de hoje fuma maconha e eles disseram que não sabiam. Dei, então, as seguintes respostas:
• Porque acham chique e sexy fumar maconha
• Porque em certos círculos é considerado charmoso
• Porque tem glamour
• Porque dá prazer
• Porque acalma
• Porque o cigarro de maconha é uma forma de se socializar
• Porque a maioria das pessoas em alguns meios fumam
• Porque acham que não vicia
• Porque não conhecem os problemas de saúde causados pelo uso de maconha.

Viés crítico-preventivo

Por que eles tinham estas respostas na ponta da língua para o cigarro, mas não para a maconha? As drogas ilícitas nunca foram abordadas com eles a partir de um viés crítico-preventivo, como fazemos com o cigarro. Apesar de quase todos terem uma opinião sobre o debate legalização x proibição da maconha, precisaram ouvir de mim o óbvio sobre os porquês dos jovens começarem a usar maconha.

A maconha tem hoje para os jovens parte do glamour que os cigarros tinham para nossos avós na década de 50. Nem todos nossos avós tiveram doenças relacionadas ao uso do tabaco, mas muitos pagaram o preço por terem fumado. Entretanto, estudos apontam que o cigarro encurtou a média de vida daquela geração em 10 anos. Felizmente a prevenção veio alterar este quadro e o número de fumantes tem diminuído a cada ano, como mostraram as respostas dos alunos.

Muito se fala da maconha recreacional ou medicinal, mas se fala pouco dos problemas que o uso em massa da maconha pode trazer, muito semelhantes aos males que o cigarro trouxe. Assim como o cigarro, a maconha, uma vez transformada em produto industrial, também terá um lobby que dificultará a prevenção e incentivará o consumo intenso. Precisamos, portanto, pensar em sua prevenção agora, independente da sua legalização, pois em ambos os casos, se proibida ou legalizada, este será um aspecto importante de saúde pública.

A experimentação da maconha já está ocorrendo na mesma faixa etária da experimentação do tabaco. Aos 17 anos, 20% dos jovens já a experimentaram, contra 25% do tabaco. Está mais do que na hora de começarmos a falar também da prevenção do uso da maconha como droga recreativa. Prevenção que, assim como com o cigarro, se dá tanto no âmbito governamental, mas também midiático e familiar, trazendo essa conversa para a mesa de jantar, onde os pais poderão falar com seus filhos dos perigos e consequências da maconha, assim como falam do cigarro.

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Relator:
Dr. João Paulo Lotufo

Grupo de combate ao uso de drogas por crianças e adolescentes da SPSP.

Publicado em 6/07/2018.

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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