Permanecer no útero por mais uma semana é vantajoso para o recém-nascido?

pregnantRecentemente, a sociedade brasileira tem sido bombardeada por perguntas que não necessariamente eram feitas há alguns anos por casais aguardando a chegada de seu filho: existe algum risco em se marcar a data do parto? O parto cesáreo pode ser considerado, neste início de século XXI, tão ou mais seguro do que o parto normal?

Vários segmentos da sociedade se manifestaram em relação a estes temas, algumas vezes de maneira apaixonada e até passional. Porém, consideramos fundamental que a Sociedade de Pediatria de São Paulo também se manifeste, à luz do conhecimento técnico científico necessário para que a população possa ser informada de maneira isenta e equilibrada.

Vamos aos fatos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é atualmente o país com maior incidência de parto cesáreo no mundo. Enquanto que em 1970 as cesáreas representavam 15% do total de nascimentos no País, hoje elas representam cerca de 52% dos três milhões de partos feitos anualmente no Brasil, segundo o estudo Nascer no Brasil, coordenado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), reunindo informações de 23.894 gestantes atendidas em 2011 e 2012 em 266 hospitais (públicos, privados e mistos) de 191 municípios brasileiros. Já nas maternidades privadas brasileiras as taxas são tão altas quanto 85-90%. Apenas para comparação, a taxa de parto cesáreo recomendada pela OMS é ao redor de 15%. Estima-se que, no Brasil, pelo menos 20 a 25% dos partos cirúrgicos são decorrentes de cesáreas programadas, sem indicação obstétrica.

Embora o parto cesáreo seja fundamental em situações de risco ou de emergência para a mãe ou para o bebê, estas indicações representam apenas uma pequena fração. Em sua maioria, os partos cirúrgicos não são indicados por complicações obstétricas, ou ainda são realizados por solicitação da mãe, que muitas vezes não conhece os riscos desta decisão para si e para seu filho.

O risco para o bebê está associado ao nascimento antes do tempo, quando ele ainda não está completamente pronto para a vida fora do útero. Segundo a OMS, uma gestação humana saudável dura entre 37 e 41 semanas, período que recebeu a denominação de Gestação de Termo. Até alguns anos atrás se considerava que todos os bebês de termo tinham o mesmo risco de ficar doentes ou de morrer após o nascimento, e que este risco era muito baixo. Hoje sabemos que isso não é verdade. Os recém-nascidos de termo com menos de 39 semanas de gestação têm um risco maior de desenvolver complicações após o nascimento, principalmente em relação à sua capacidade de respirar normalmente fora do útero. Essa falha de adaptação respiratória após o nascimento é ainda maior quando o bebê nasce de parto cesáreo sem que a mãe tenha entrado em trabalho de parto, pois as contrações (ou o trabalho de parto) contribuem de maneira muito importante para o preparo final dos pulmões do bebê, permitindo uma respiração normal após o nascimento. De fato, pesquisadores brasileiros demonstraram, em um estudo publicado em 2012, que bebês nascidos com 37 semanas de gestação por parto cesáreo sem trabalho de parto tinham maior risco de internação hospitalar e de óbito.

Outro problema associado ao excesso de cesáreas é o aumento da taxa de prematuridade (definida pela OMS como nascimento antes de 37 semanas de gestação), pois não é incomum ocorrer um erro no cálculo da idade gestacional do bebê, o que poderia determinar o nascimento uma ou duas semanas antes do tempo adequado. Nesse sentido, (um) outro estudo de pesquisadores brasileiros publicado em 2008 já apontava um aumento nas taxas de prematuridade no Brasil, particularmente o grupo de prematuros tardios (crianças entre 34 e 37 semanas de gestação).

A maior prevalência da prematuridade resulta em um maior risco do bebê desenvolver problemas de adaptação à vida fora do útero, particularmente problemas respiratórios, que determinam a sua internação na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). Além da preocupação e da frustração dos pais em decorrência da internação de seu bebê na UTIN, há um aumento dos custos associados ao atendimento do recém-nascido, que podem ser significativos.

Quais são as alternativas que os pais dispõem hoje para garantir um nascer seguro e saudável para o seu filho? Sem dúvida uma adequada assistência obstétrica é fundamental, evitando-se o nascimento desnecessário antes da hora e escolhendo-se a via de parto mais adequada para cada situação em particular, seja o parto vaginal, em gestações sem complicações, seja o parto cesáreo, quando houver clara e precisa indicação por risco materno ou do bebê.

Nesse sentido, o diálogo franco dos pais com o obstetra e, quando possível, com o pediatra que fará o acompanhamento (do recém-nascido) após o nascimento, é a melhor opção para se fazer a escolha mais adequada para o nascimento do bebê.

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Relator:
Dr. Celso Moura Rebello
Departamento Científico de Neonatologia da SPSP.

Publicado em 10/12/2015.
photo credit: ggomang | pixabay.com

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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