Para que serve a chupeta?

As discussões em torno do uso da chupeta são frequentes entre as várias especialidades materno-infantis. Para os odontopediatras, por exemplo, ela é uma grande vilã, com implicações significativas no desenvolvimento oral. Fonoaudiólogos atribuem ao seu uso o prejuízo na fala e outras funções motoras, mas são os pediatras especialistas em amamentação que mais se preocupam e consideram a chupeta como um grande empecilho no estabelecimento de uma boa relação do bebê com o seio.

Recentemente, em outubro de 2016, o tema ganhou destaque entre esses especialistas gerando uma grande polêmica, quando o uso da chupeta foi recomendado pela Academia Americana de Pediatria como prevenção da Síndrome de Morte Súbita Infantil (SMSI), que tanto apavora pais e pediatras. Tal medida ainda é controversa e não há consenso.

Não pretendemos aqui discorrer sobre os prós e contras, mas convidar os pais a refletirem sobre o lugar que a chupeta ocupa na relação com seus filhos e que, em boa parte das vezes, pode camuflar conflitos e angústias que precisam ser pensados e elaborados de outro modo. Se ela é sinônimo de recurso para situações emocionais de stress, mais do que julgá-la certa ou errada em si, melhor pensar sobre as motivações de seu uso pelos pais.

Crianças a partir de 18 meses

As implicações mencionadas em relação à saúde oral estão relacionadas ao uso excessivo da chupeta, quer seja no tempo de uso diário ou quanto à idade da criança. A exemplo disso evoco a imagem de algumas crianças que fazem uso dela mesmo quando já deixaram de ser bebês, muitas vezes chegando a extremos como 7, 8 e até 10 anos de idade. Por que uma criança que já tem o recurso da fala plenamente desenvolvido precisaria de um aparato sem voz? Certamente essa criança está usando a chupeta para aplacar desconfortos e ansiedades com as quais não sabe como lidar. Seria um modo de silenciar angústias e substituí-las, como acontece em todo vício. Mais tarde, essa satisfação oral pode ser substituída por bebida, comida ou cigarro, caso não tenha sido devidamente elaborada.

O uso da chupeta para crianças que já adquiriram a fala é um alerta. Os pais precisam se perguntar sobre o que se passa com ela. Ao atentarem para os detalhes do hábito perceberão quando ela é buscada – às vezes se intensifica em momentos circunstanciais, como o nascimento de um irmão, mudanças familiares, entrada na escola etc. Cientes do motivo, os pais poderão oferecer a ela um acolhimento afetivo que possa ajudá-la na elaboração do problema, ao invés de distraí-la. Assim, a chupeta aos poucos vai perder sua função psíquica e pode ser abandonada.

Em alguns casos, o uso da chupeta pode representar uma regressão, um modo da criança não enfrentar as dificuldades de uma etapa posterior do desenvolvimento, ou mesmo a recusa dos pais em aceitar que “seu bebê” está crescendo.

Bebês

Que a chupeta acalma o bebê não há dúvida. Mas em quais circunstâncias e como ele precisa ser acalmado?

É comum pais oferecerem chupeta ao bebê tão logo comece a resmungar. Na ausência da fala, os resmungos, choros e gritos são o recurso possível para que o bebê se comunique. A chupeta pode fazer com que ele pare de reclamar, mas não significa que resolveu o desconforto, mas que “se conforma” com o prazer que lhe é oferecido, ainda que paliativo. Se esse for um jeito frequente dos pais “resolverem” seus problemas, o bebê entende que não adianta pedir ajuda e aceita de forma resignada. Isso pode marcar seu aprendizado com experiências de solidão, podendo até mesmo deixá-lo apático e deprimido. Os pais podem querer “calar o bebê” porque sentem-se impotentes e inseguros para atendê-lo. Acreditam não serem capazes de compreendê-lo e acham que, ao parar de chorar, o bebê está confortável, o que nem sempre é verdade.

Para saber o que ele quer, os pais precisam lidar com o próprio desconforto e a angústia que o bebê pode transmitir com seu choro. Precisam fazer o exercício de se colocar em seu lugar para tentar decodificar suas demandas. Nem sempre é fácil, mas a experiência contínua de olhar atentamente para o bebê e se perguntarem sobre o que está acontecendo com ele faz com que aprendam a conhecê-lo aos poucos e descobrem que os choros, resmungos e gritos têm timbres e intensidades diferentes. Constrói-se desse modo uma linguagem entre eles.

Há momentos nos quais a angústia do bebê é tão intensa que inunda o ambiente e impede que os pais possam pensar sobre o que está acontecendo com ele. Desesperados, e também tomados de angústia, os pais usam a chupeta como um jeito de acalmar a si mesmos. É importante que estejam atentos quando isso acontece para retomarem o problema quando já recuperaram o equilíbrio emocional e voltam a ser capazes de interagir e se perguntarem sobre a natureza do choro, em busca de uma compreensão.

Manejar a angústia em si e na criança é um aprendizado importante no processo de pensar e ajuda a construir um continente psíquico que será, cada vez mais, capaz de tolerar tensões e desconfortos, tanto para os pais como para o bebê.

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Relatora
Dra. Denise de Sousa Feliciano

Departamento Científico de Saúde Mental da SPSP.

Publicado em 30/05/2017.
photo credit: weinstock | Pixabay.com

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