Mídia: jogos e desafios online entre adolescentes

Os desafios presentes na Internet, conhecidos na Língua Inglesa como challenges ou dares, são um fenômeno cultural que envolve a realização de tarefas inusitadas por usuários da rede, com posterior transmissão e veiculação das mesmas, através de posts, fotos e vídeos. Esse fenômeno tem como objetivos:

• inspirar e provocar outros usuários a repetirem as tarefas;
• ser recompensado pelas mídias sociais a ter um comportamento “no limite”, através de mais visualizações, viralização do conteúdo, curtidas (likes), comentários e seguidores.

Muitos desafios e jogos são antigos e, conforme o tempo passa, são reinventados e relançados. Os jovens, fazendo parte desse ambiente impulsivo e altamente rotativo, não querem ficar excluídos das novidades e acabam se rendendo às tarefas. Como exemplos, podemos citar desde desafios como ingestão de canela em pó ou cápsulas de sabão líquido, até os que começam inofensivamente e podem culminar com a morte do participante.

O fenômeno do “desafio da baleia azul”, com 50 tarefas progressivamente perigosas, foi difundido no mundo todo entre 2016 e 2017, com relatos consideráveis de suicídios. Mais recentemente, houve o “desafio Momo”, em que instruções eram dadas através de ameaças da personagem Momo, incluindo chantagens, frases e fotos aterrorizantes distribuídas através das mídias sociais. Já no ano de 2019, o “desafio Bird Box” – inspirado em filme homônimo em que personagens sobrevivem vendados – estimula a realização de tarefas como dirigir sem enxergar.

O fenômeno dos desafios online pode ser classificado como uma “autoagressão imitativa”, ou seja, a pessoa imita a agressão realizada por outra (disfarçada de “tarefa”). Outros métodos de autoagressão, como a automutilação ou mesmo de agressão a outros e suicídio acabam sendo banalizados, vistos como comuns.

O cérebro do jovem está em desenvolvimento e é importante que nessa fase existam novas experiências, para que se adquira conhecimento e aprendizado. No entanto, a região cerebral responsável pelos pensamentos racionais (córtex pré-frontal) só termina de se desenvolver entre 20 e 30 anos de idade. Dessa maneira, os jovens são naturalmente mais impulsivos e fazem muitas coisas sem notar as consequências negativas.

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Esteja perto e crie vínculos

Conhecer os “desafios” do momento é importante para pais e mães de todas as faixas etárias:
• informe-se sobre o desafio, suas propostas, consequências e perigos;
• inicie diálogo com seu/sua adolescente perguntando se já ouviu falar, viu ou conhece alguém que realizou o desafio;
• pergunte sua opinião sobre o challenge. Alerte sobre as consequências através de conversa aberta e franca e tente estimular a habilidade de julgamento do risco;
• se perceber que existe intenção de participar dos desafios, estimule a pensar em cada passo, inclusive com as piores consequências possíveis, como: ficar doente, se machucar, machucar outros e até morrer. Nas mídias sociais também estão presentes os desafios que deram errado, que podem ser utilizados como exemplo. Será que vale a pena? Faça um convite à reflexão;
• acompanhe seu/sua jovem nas mídias sociais e tente ficar por dentro das novidades digitais;
• exerça seu poder parental ou de responsável sobre aquele indivíduo: se necessário, limite contato com colegas e possíveis ameaças/ameaçadores. O melhor controle que pode existir é ser próximo e criar vínculos;
• sempre procurar ajuda de profissional capacitado para pesquisar outros comportamentos prejudiciais e de sofrimento psíquico, como bullying e transtornos de humor, entre outros.

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Relatoras:
Dra. Bianca Rodrigues de Godoy Lundberg
Dra. Carolina Maria Soares Cresciúlo

Departamento Científico de Adolescência da SPSP.

Publicado em 26/02/2019.

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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