Dores na barriga: por que e como resolver?

dreamstime_xs_21206962“Mamãe, papai, minha barriga está doendo”.

Certamente, vocês, pais, já devem ter escutado essa queixa inúmeras vezes, já que a dor abdominal tem uma frequência de 10 a 18% em crianças e adolescentes na faixa etária de 4 a 14 anos.

Como a cavidade abdominal abriga uma grande quantidade de órgãos do nosso corpo, está sujeita a uma variedade de distúrbios que podem provocar a sensação de dor. Apesar de, normalmente, tratar-se de uma causa benigna, esta queixa é uma procura frequente aos consultórios médicos e está associada a faltas na escola, preocupações familiares, ansiedade e depressão dos pacientes.

Logicamente, todas as queixas que envolvam os filhos devem merecer a completa atenção dos pais no sentido de esclarecê-las. É importante, contudo, esclarecer que na maioria das vezes, não existe necessidade de pânico ou intensa preocupação.

A dor abdominal crônica, também conhecida como recorrente é uma das mais frequentes, sendo por isso, importante o conhecimento de seu conceito: apresenta duração mínima de três meses, embora alguns médicos considerem suficiente a duração superior a um ou dois meses. Na maioria das vezes, a criança apresenta uma queixa de dor na barriga, mal definida, pouco localizada ao redor da região umbilical, pouco relacionada a tipo ou horários de refeições, atividade física ou padrão de evacuações e com duração inferior a uma hora. Via de regra, não existe comprometimento do estado geral e, também, não interfere no crescimento e desenvolvimento da criança.

O tipo de inervação de grande parte dos órgãos abdominais dificulta, muitas vezes, relacionar o local da dor com o órgão acometido, irradiando uma dor difusa ao redor do umbigo ou para outra localização do abdome. É comum, durante a ocorrência da dor, esta vir associada à palidez, tonturas, dor de cabeça ou cansaço.

A dor abdominal recorrente pode ser causada por uma doença orgânica ou, mais comumente, por uma causa funcional, na qual existe a dor, porém não se consegue encontrar nenhuma alteração estrutural, infecciosa, inflamatória ou bioquímica que explique essa queixa. Em outras palavras, observa-se que ela é uma dor real causada por um aumento da intensidade da motilidade intestinal em resposta a diversos estímulos que podem localizar-se apenas no aparelho digestório, sem influenciar a criança como um todo. A causa especifica da resposta dolorosa é desconhecida, porém provavelmente existe um componente genético familiar que determina esta maior sensibilidade e frequência dos episódios dolorosos.

A maioria das crianças que apresenta dor abdominal recorrente visita um grande numero de médicos e é submetida a uma longa série de exames laboratoriais e de imagens, na tentativa de elucidar seu diagnóstico. Frequentemente, esses exames não comprovam uma doença orgânica e esse fato desencadeia ansiedade e sensação de frustração dos pais, particularmente se a única alternativa diagnóstica é percebida por eles como sendo de causa emocional ou um distúrbio de comportamento. Essa dúvida somente aumenta o estresse ambiental que, por sua vez, reforça o comportamento doloroso.

Sintomas de alerta

Quando estamos diante de uma dor abdominal de causa orgânica, existem sinais e sintomas de alerta que devem ser percebidos e, imediatamente, relatados ao médico de confiança. Por exemplo: dor na barriga persistente, do lado direito; dor ao se alimentar; vômitos persistentes; sangramentos gastrointestinais; diarreias noturnas; história familiar de doença inflamatória intestinal ou Doença Celíaca; dor que acorda a criança; inflamação articular; doença ao redor do ânus; perda de peso importante; febre sem causa aparente; desaceleração do crescimento e retardo puberal. Na presença desses sinais, existe a possibilidade de tratar-se de uma doença orgânica mais grave e que necessita de tratamento mais imediato.

Tratamento

Em relação ao tratamento, é de fundamental importância o diagnóstico diferencial entre a causa orgânica e causa funcional, na qual a dor é real, porém sem evidência de causa orgânica.

O objetivo do tratamento da dor funcional é restaurar a normalidade da atividade do paciente, o que não necessariamente envolve o total desaparecimento do sintoma dor. É importante saber que a dor é real e é causada por um aumento da intensidade da motilidade intestinal, em resposta a diversos estímulos, que podem localizar-se apenas no aparelho digestório, sem influenciar a criança como um todo; além disso, saber que não existe nada grave como doenças intestinais inflamatórias e neoplasias.

Deve-se, também, procurar por mudanças ambientais e comportamentais, tentando-se descobrir as causas que estão influenciando o aparecimento do sintoma e reverter os fatores que geram ansiedade e que possam desencadear a dor. Remover o reforço inadequado nos episódios dolorosos, abolindo os ganhos secundários como presentes, privilégios e maior atenção familiar.

As atividades somente deverão ser interrompidas no momento da crise, tanto na escola como no ambiente social. Após o término da crise, a vida deve continuar dentro de sua rotina normal. Os pais, o pediatra e a escola devem estar entrosados para dar suporte à criança frente à dor, sem prejudicar a assiduidade escolar.

Aos pacientes, deve-se ensinar técnicas que diminuam a intensidade do sintoma durante as crises, desviando a atenção da percepção dolorosa, como assoviar, cantar, pular, correr, escrever ou fazer cálculos matemáticos. Técnicas de relaxamento como sentar, andar ou deitar confortavelmente podem melhorar a dor.

Não existem dados científicos que reforcem o uso de medicamentos. Ocasionalmente, até que os efeitos das mudanças comportamentais sejam sentidos, pode ser necessário o uso de medicação analgésica. Algumas vezes pode ser útil o auxílio psicológico no tratamento. Mudanças de hábitos como evitar, principalmente no grupo etário da adolescência, fumo, álcool, cafeína, alimentos específicos que pioram os sintomas e anti-inflamatórios devem ser considerados no tratamento.

Quando, além da dor, existe acometimento da motilidade intestinal com predomínio de diarreia, existe beneficio no uso de dietas com poucas fibras (cereais, verduras com talos etc.) e diminuição dos açúcares como lactose, frutose e sorbitol (usado em sucos industrializados). Aqueles que, ao contrário, apresentem constipação alternando com diarreia, melhoram com dietas ricas em fibras e menor teor de gorduras, além de, ocasionalmente, necessitar o uso de antiespasmódicos (remédio para cólica).

Os pacientes devem ser orientados a se alimentar pausadamente, evitando a aerofagia (engolir ar durante a refeição). As avaliações dos diferentes tratamentos para a dor abdominal crônica funcional têm mostrado o efeito benéfico das terapias cognitivas comportamentais.

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Relator:
Dr. Luiz Henrique Hercowitz
Dr. Adriano de Castro Filho
Dra. Fernanda Paixão Silveira Bello
Membros do Departamento Científico de Gastroenterologia da SPSP (2013-2016)

Publicado em 6/11/2013.
photo credit: Gvictoria | Dreamstime.com

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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Author: SPSP

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