Como funciona o banco de leite humano

baby-21167_640O Banco de Leite Humano (BLH) é um centro altamente especializado que funciona como Centro de Lactação, isto é, promove, apoia a amamentação, auxiliando sua manutenção principalmente em puérperas que não podem amamentar seus filhos.

Na grande maioria das vezes presta atendimento a mães de prematuros que estão internados em unidades neonatais, mas também apoia as nutrizes que apresentam dúvidas ou dificuldades na lactação. Em alguns casos, auxilia na produção de leite em mulheres que adotaram crianças ou mães que estão sem produção, por vários outros motivos.

O BLH atua também na prevenção e tratamento de problemas mamários, visando o sucesso da amamentação exclusiva por 6 meses e o prolongamento do período de amamentação por 2 anos ou mais, se assim a mãe desejar, de acordo com as recomendações da OMS/UNICEF/MS/SBP.

O banco de leite humano faz a coleta domiciliar, o que significa que a mãe não necessita sair da sua casa. A funcionária do BLH vai até a casa da doadora, e o transporte do leite ao hospital é feito com controle de temperatura em todo o percurso, para que ele não perca suas propriedades.

Na cidade de São Paulo os BLH têm parceria com o corpo de bombeiros e o SAMU na coleta do leite, pois eles entendem que leite humano salva vidas. Assim, muitas vezes o bombeiro acompanha a coleta de leite domiciliar, mas às vezes a coleta é realizada por um mensageiro de moto (motoboy) e carro das instituições.

Ao chegar ao BLH o leite será selecionado e classificado (colostro; leite de transição e leite humano maduro; leite anterior e posterior) e passará por processo de pasteurização e controle de qualidade microbiológico e físico-químico. Será estocado e, posteriormente, distribuído a crianças internadas de acordo com prescrição de médicos ou nutricionistas (RDC171/06 ANVISA/MS). Os BLHS são obrigatoriamente vinculados a um hospital materno e/ou infantil. Suas atividades são sem fins lucrativos.

Qual nutriz poderá ser doadora de leite humano?
Doadoras são mulheres sadias, que apresentam secreção láctea superior às exigências de seus filhos e que se dispõem a doar o excedente por livre e espontânea vontade (Ministério da Saúde, 2008). A nutriz que possui produção de leite maior do que seu filho necessita, deverá ordenhar sua mama para evitar que o leite fique empedrado, tenha fissuras, mastite e até complicações mais sérias, como o abscesso mamário. Esse leite ordenhado poderá contribuir para salvar vidas se for doado ao BLH. A doação de leite é voluntária.

As doadoras são submetidas à triagem através da história da gestação e atual, ao exame físico e a alguns exames de sangue necessários. O médico do BLH analisa os dados e decide se as nutrizes poderão ser doadoras. Serão consideradas inaptas as que forem portadoras de moléstias infecto-contagiosas, que façam uso de medicação que contra indique a amamentação, que sejam fumantes ou façam uso de bebidas alcoólicas ou, ainda, as que se encontrarem em risco nutricional (ANVISA 2008).

O obstetra que acompanhou a gestante durante todo o pré-natal e o pediatra deverão motivá-la à doação de leite e esclarecer dúvidas quanto à segurança do uso de Leite Humano de BLH.

Como funciona a coleta domiciliar no caso de doações de leite humano?
As doadoras são cadastradas após seleção feita pelo médico do BLH, de acordo com os exames de pré-natal e dados cadastrais. A visita domiciliar para retirada do leite armazenado pela mãe é feita pelo auxiliar de enfermagem ou técnico de nutrição do BLH. Ao chegar à casa da doadora esse profissional orientará sobre a técnica de ordenha e armazenamento do leite para doação. Entrega para mãe os frascos de vidros esterilizados, touca, máscara e folhetos informativos.

Durante o percurso da coleta nos domicílios é feito o controle de temperatura das caixas isotérmicas (PVC), com gelo reciclável, utilizadas no transporte para manter a cadeia de frio (temperatura < -3°C). A duração do trajeto não deve ultrapassar seis horas e o retorno deverá ser a qualquer momento, quando verificada alteração de temperatura nas caixas (ANVISA, 2008). Esse controle rigoroso de temperatura é para garantir que o leite não perca suas propriedades de nutrição e proteção.

Quais crianças podem receber leite de BLH?
Para receber o leite do BLH a criança deve apresentar uma ou mais das indicações que seguem (RDC 171/06):
• Prematuros e recém-nascidos (RNs) de baixo peso que não sugam;
• Colostroterapia (imunoterapia com colostro para RNs graves que não podem ser alimentados precocemente);
• RNs em Nutrição Trófica (estimulação da mucosa do trato gastrointestinal com volumes pequenos de leite humano para auxiliar o desenvolvimento e aceitação da dieta);
• RNs infectados, especialmente com infecções entéricas (enterocolite necrosante nos RNs prematuros e doentes, diarreias);
• Portadores de deficiências imunológicas (imunodeficiência seletiva de Ig A);
• Crianças com diarreia;
• Portadores de alergia a proteínas heterólogas (alergia a proteína do leite de vaca);
• Casos excepcionais, a critério médico (Doença de Crohn, HIV). A prescrição do leite é feita pelo médico ou nutricionista.

Como faço para manter a amamentação com a volta ao trabalho?
O trabalho materno fora do lar pode ser um importante obstáculo à amamentação, em especial a exclusiva. A manutenção da amamentação nesse caso depende do tipo de ocupação da mãe, do número de horas no trabalho, das leis e de relações trabalhistas, do suporte ao aleitamento materno na família, na comunidade e no ambiente de trabalho e, em especial, das orientações dos profissionais de saúde para a manutenção do aleitamento materno em situações que exigem a separação física entre mãe e bebê.

Para as mães manterem a lactação após retornarem ao trabalho é importante que o profissional de saúde estimule os familiares, em especial o companheiro, quando presente, a dividir as tarefas domésticas com a nutriz e oriente a mãe que trabalha quanto a algumas medidas que podem facilitar a manutenção do aleitamento materno, listadas a seguir:

Antes do retorno ao trabalho
• Manter o aleitamento materno exclusivo;
• Conhecer as facilidades para a retirada e armazenamento do leite no local de trabalho (privacidade, geladeira, horários);
• Praticar a ordenha do leite (de preferência manualmente) e congelar o leite para usar no futuro. Iniciar o estoque de leite 15 dias antes do retorno ao trabalho.

Após o retorno ao trabalho
• Amamentar com frequência quando estiver em casa, inclusive à noite;
• Evitar mamadeiras; oferecer a alimentação por meio de copo e colher;
• Durante as horas de trabalho esvaziar as mamas por meio de ordenha e guardar o leite em geladeira. Levar para casa e oferecer à criança no mesmo dia ou no dia seguinte ou congelar. Leite cru (não pasteurizado) pode ser conservado em geladeira por 12 horas e no freezer ou congelador por 15 dias;
• Para alimentar o bebê com leite ordenhado congelado, este deve ser descongelado. Faça-o, de preferência, em banho–maria e não dentro da geladeira, porque esse processo pode demorar muito e favorecer a contaminação. Uma vez descongelado, o leite deve ser amornado em banho-maria fora do fogo. Antes de oferecê-lo à criança, o frasco que contém o leite deverá ser movimentado suavemente para uniformizar a gordura.

Realizar ordenha, de preferência manual, da seguinte maneira:
• Procurar um local tranquilo;
• Prender os cabelos;
• Usar máscara ou evitar falar, espirrar ou tossir enquanto estiver ordenhando o leite;
• Ter à mão pano úmido limpo e lenços de papel para limpeza das mãos;
• Lavar cuidadosamente as mãos e antebraços. Não há necessidade de lavar os seios frequentemente;
• Secar as mãos e antebraços com toalha limpa ou de papel;
• Posicionar o recipiente onde será coletado o leite materno (copo, xícara, caneca ou vidro de boca larga) próximo ao seio;
• Massagear delicadamente a mama como um todo com movimentos circulares da base em direção à aréola;
• Procurar estar relaxada, sentada ou em pé, em posição confortável. Pensar no bebê pode auxiliar na ejeção do leite;
• Curvar o tórax sobre o abdômen, para facilitar a saída do leite e aumentar o fluxo;
• Com os dedos da mão em forma de “C”, colocar o polegar na aréola ACIMA do mamilo e o dedo indicador ABAIXO do mamilo na transição aréola-mama, em oposição ao polegar, sustentando o seio com os outros dedos;
• Usar preferencialmente a mão esquerda para a mama esquerda e a mão direita para a mama direita, ou usar as duas mãos simultaneamente (uma em cada mama ou as duas juntas na mesma mama – técnica bimanual);
• Pressionar suavemente o polegar e o dedo indicador, um em direção ao outro, e levemente para dentro em direção à parede torácica. Evitar pressionar demais, pois pode bloquear os ductos abaixo da aréola.
• Pressionar e soltar, pressionar e soltar. A manobra não deve doer se a técnica estiver correta. A princípio o leite pode não fluir, mas depois de pressionar algumas vezes o leite começará a pingar. Poderá fluir em jorros se o reflexo de ocitocina for ativo;
• Desprezar os primeiros jatos, assim, melhora a qualidade do leite pela redução dos contaminantes microbianos;
• Mudar a posição dos dedos ao redor da aréola para esvaziar todas as áreas;
• Alternar a mama quando o fluxo de leite diminuir, repetindo a massagem e o ciclo várias vezes. Lembrar que ordenhar leite de peito adequadamente leva mais ou menos 20 a 30 minutos, em cada mama, especialmente nos primeiros dias, quando apenas uma pequena quantidade de leite pode ser produzida.

A extração do leite humano também poderá ser realizada através de bomba manual ou elétrica. Se for esta opção da nutriz, ela deverá ser realizada coma bomba manual ou mecânica, com higienização prévia dos componentes antes de cada ordenha e a mama deverá estar macia para não acontecer um trauma mamilo-areolar.

O leite ordenhado deve ser oferecido à criança de preferência utilizando-se copo, xícara ou colher. Para isso, é necessário que o profissional de saúde demonstre como oferecer o leite à criança. A técnica recomendada é a seguinte:
• Acomodar o bebê desperto e tranquilo no colo, na posição sentada ou semi-sentada, sendo que a cabeça forme um ângulo de 90º com o pescoço;
• Encostar a borda do copo no lábio inferior do bebê e deixar o leite materno tocar o lábio. O bebê fará movimentos de lambida do leite, seguidos de deglutição;
• Não despejar o leite na boca do bebê.

Que auxílio o BLH pode oferecer aos obstetras, aos pediatras, às puérperas e às nutrizes?
Os obstetras e pediatras que atendem mães com dificuldades em amamentação e em dar continuidade ao aleitamento materno e como conciliar a amamentação com trabalho, devem entrar em contato com os BLH para troca de experiências, conhecer um pouco sobre o trabalho e tempo de Licença Maternidade.

A mãe deve procurar se informar se a empresa possui creche ou sala de apoio à amamentação.

Como entrar em contato com BLH?
A Rede Nacional de Banco de Leite Humano informa pela internet a relação completa dos BLHs do Brasil: www.redeblh.fiocruz.br. A Rede possui um canal de informação através do fale conosco, no qual tanto as nutrizes como os profissionais poderão esclarecer suas dúvidas. As nutrizes e doadoras também recebem informações através do SOS Amamentação: 0800 26 88 77.

Na grande São Paulo: Centro de Referência em Banco de Leite Humano da Região Metropolitana e Grande São Paulo Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros: 2692-4068 ou 2292-4188 ramal 256. Ou por e-mail: blhleonor@ig.com.br.

No interior do Estado: Centro de Referência em Banco de Leite Humano do Interior (BLH-Anália Ribeiro Heck/Ribeirão Preto: (16)3610-8686 ou 3610-2649. Por e-mail: bcoleite@hcrp.usp.br.

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Relatoras:
Dra. Marisa da Matta Aprile
Dra. Maria José Guardia Mattar

Departamento Científico de Aleitamento Materno da SPSP

Publicado em 29/10/2014.
photo credit: PublicDomainPictures | Pixabay.com

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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Author: SPSP

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