Amamentação é a base da vida – Dra. Renata Santos

Amamentar sempre foi um sonho quando pensava em ser mãe. Com a bagagem que tinha da minha profissão, que não era muita (cinco anos de formada, incluindo três de residência em Pediatria), não quis enfrentar esse desafio sozinha. Escolhi uma pediatra especialista em aleitamento materno, humana e experiente.

E Gabriel nasceu… e com ele todas as dificuldades que não eram apenas da amamentação, mas de toda uma mudança de papeis, de mulher a mãe, de pediatra a paciente, do individual a dupla mãe/bebê.

Na maternidade, ele só queria colo e só se acalmava no peito. Não tive fissuras, mas mamava o “tempo todo” e por semanas eu passava o dia praticamente todo com ele no peito. E se não fosse a rede de apoio (pediatra, amigos e familiares), dificilmente conseguiria corresponder a toda demanda sem apelar para uma fórmula.

Apojadura foi arrastada, semanas de leite ordenhado, sonda, copo ou colher, muuuuiiita paciência e apoio de todos que me cercavam. Chupeta até passou pela cabeça em muitas madrugadas. E que bom que eu havia jogado fora a única que ganhara e meu companheiro me apoiou nessa.

Mais algumas semanas, veio o diagnóstico de alergia à proteína do leite de vaca (APLV). Para manter a amamentação e para a melhora dos sintomas do meu filho (refluxo, dermatite e sangue nas fezes), eu deveria retirar algumas proteínas alergênicas da minha dieta, por looonngos meses. Recebi opiniões de amigos pediatras sobre a possibilidade de substituição do meu leite por fórmulas específicas. Encontrei profissionais que apoiavam a amamentação, seguimos sem fórmulas.

Mesmo sendo profissional da saúde e conhecendo o drama de tantas mães e a batalha para amamentar nossos filhos, a prática nunca chegou perto da teoria, que vem com sonhos, sonos, olhares, cansaço físico, mas com aquele sorriso de satisfação após cada mamada.

Após dois anos e nove meses de aleitamento materno do Gabriel, sendo que nos últimos seis meses eu já estava grávida de Catarina, ao oferecer o peito ele disse: “Mamãe, eu não quelo mais mama”. Missão cumprida.

Catarina completou dois anos de muito peito este mês sem data para acabar essa história. Mãe experiente, filha mamava exclusivamente para se nutrir, sem APLV. Mas aleitamento é aleitamento, é disposição, entrega, noites a fio, é o nosso corpo, tudo junto e misturado para corresponder às necessidades dos nossos bebês e filhos. São ganhos imensuráveis para eles, para nós. E marcas que ficarão conosco para todo o sempre.

E de pediatra a mãe, agora retorno de mãe a pediatra. Viver essa história nos deixa infinitamente mais empáticos com os desejos e histórias de cada família. Revivemos nossa própria história ao atender tantas outras, semeando confiança e empoderando as mães para amamentarem seus bebês, como, onde e até quando elas quiserem.

Dra. Renata Cavalcante Kuhn dos Santos
Esposa de Eduardo, mãe de Gabriel (5 anos) e Catarina (2 anos).
Pediatra do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

agosto dourado

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Publicado em 23/08/2018.

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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Author: SPSP

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