Amamentação é a base da vida – Dra. Marisa Aprile

Tive o meu primeiro filho no final da década de setenta. Estava terminando a residência de Pediatria e, nessa época, o aleitamento materno era pouco valorizado.

Tínhamos, na residência médica, apostilas inteiras sobre todos os leites industrializados e também “caseiros”, à base de leite de vaca, mas uma linha apenas de alguma dessas apostilas me chamou atenção: “O leite da própria mãe é o alimento ideal para a criança” e, a despeito de tudo que havia aprendido sobre fórmulas, decidi dar o melhor para o meu filho – o meu leite.

Ele mamou até 1 ano e 3 meses. Ao longo desse tempo começou a apresentar quadros alérgicos. Resolvi passar em consulta com um professor alergista que diagnosticou alergia ao leite de vaca. Não tive coragem de dizer que ele só recebia meu leite, afinal, ele era meu mestre. Saí do consultório com vacinas caríssimas. Revoltada, ao chegar em casa, joguei tudo no lixo, chorando de raiva e pensando: alergia ao leite de vaca? Como assim? Só se a vaca for EU!!!

Continuei dando o peito e ele sempre com alergias. Tive o segundo filho e a história se repetiu, mais grave ainda porque ele teve bronquiolite aos três meses e depois asma e acabou mamando por menos tempo.

Passaram-se os anos e eu sempre me lembrava desse professor com mágoa, afinal havia dado um diagnóstico muito errado. Até que apareceram estudos mostrando que a proteína do leite de vaca passa para o leite. Eu nunca havia contado que tomava três litros de leite por dia, pensando que isso me faria produzir mais leite!!!!!!

Apesar das alergias, meus filhos tiveram ótimo desenvolvimento e nunca foram internados.

Na década de oitenta houve uma grande mudança na abordagem do aleitamento. O profissional passou a ficar ao lado da mãe, dando apoio. Ficou claro que ela não podia “se virar” sozinha.

Para aprender essa nova técnica fui fazer um estágio em um hospital que acolhia mulheres sem lar e que pretendiam abandonar seus filhos. Era protocolo do hospital o parto normal e aleitamento materno. Parecia magia, vi muitas mulheres mudarem de postura e se apaixonarem por seus filhos.

Tive a certeza de que se quisesse um mundo melhor esse seria o caminho, pois mulheres que amamentam amam seus filhos. Se há amor, há carinho, saúde e um ponto muito importante nos dias de hoje: não há aumento das estatísticas de crianças abandonadas. Depois dessa experiência tive certeza que o aleitamento materno teria que direcionar minha profissão e minha vida.

Dra. Marisa da Matta Aprile
Esposa do Roberto, mãe do Alexandre (38 anos) e do Bruno (36 anos) e avó do Arthur (2 anos e 10 meses).
Pediatra do Departamento Científico de Aleitamento Materno da SPSP.

agosto dourado

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Publicado em 17/08/2018.

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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Author: SPSP

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