A era moderna dos alimentos industrializados e risco para pedra nos rins

A cena é clássica: família feliz ao redor da mesa, tomando o café da manhã tranquilamente, uma mesa farta de alimentos saudáveis e naturais como frutas, cereais e grãos e um pote de margarina. No entanto, entre a cena do comercial de televisão e o dia a dia da maioria das famílias modernas, há em comum somente o pote de margarina. Há anos a rotina alimentar nos centros urbanos deixou de ser uma ocasião tranquila como na propaganda e se tornou uma estressante obrigação do dia. Nos poucos minutos que temos dedicados às grandes refeições, faltam opções naturais e saudáveis e sobram produtos industrializados, carregados de componentes que pouco conhecemos, cujas consequências maléficas de sua ingestão vêm sendo detectadas ao longo dos anos.

Dentre os vários problemas relacionados à qualidade dos alimentos que ingerimos, a formação de pedras nos rins, a chamada nefrolitíase, é uma das condições mais sensivelmente determinadas pelos hábitos alimentares e estilo de vida.

A nefrolitíase é uma doença que afeta agudamente os indivíduos de todas as faixas etárias, causando dores abdominais muitas vezes de forte intensidade. As pessoas que experimentaram crise de pedras nos rins, conhecida como cólica nefrética, afirmam se tratar de uma das dores mais fortes que já sentiram e isso é verdade, sendo frequentemente necessárias hospitalizações e medicações analgésicas potentes. Porém, a dor é apenas um dos aspectos que fazem da litíase uma doença que mereça atenção. Durante os quadros agudos existe o risco de associação com infecções urinárias, sangramentos, obstrução à saída da urina e, em casos mais graves, parada do funcionamento dos rins.

E qual a consequência dos hábitos pouco saudáveis da vida moderna sobre esta condição?

Um recente estudo conduzido pela divisão de Urologia do Children’s Hospital of Philadelphia na população do estado da Carolina do Sul – EUA concluiu que houve um dramático aumento nas taxas de incidência de nefrolitíase na população geral nos últimos 20 anos, sendo o mais marcante na faixa etária pediátrica. A cada ano o aumento da incidência é de 1%, porém na faixa etária de 15 a 19 anos, essa taxa cresceu 26% em cinco anos! O risco de aparecimento de pedras nos rins nas crianças praticamente dobrou em duas décadas. Paralelamente, estudos conduzidos a respeito da nutrição infantil detectaram grandes mudanças nos padrões de alimentação. O consumo diário de leite reduziu enquanto o de bebidas açucaradas, como refrigerantes, por exemplo, aumentou drasticamente.

A ingestão diária de sódio também aumentou consideravelmente e a causa disso é a crescente industrialização dos alimentos necessitando de aditivos, conservantes, agentes de sabor e outros componentes com alto teor desse ingrediente. Neste contexto, o sódio age como um grande vilão na medida em que altera a composição da urina, tornando-a mais ácida e assim mais suscetível à formação de cálculos de oxalato de cálcio, o principal componente das temíveis “pedras”. Tudo isso foi recentemente revisado pelos urologistas Douglas Clayton e John Pope, da Universidade Vanderbilt, em estudo publicado e altamente citado em diversas publicações científicas pelo mundo.

Ainda que não existam conclusões definitivas a respeito, o tipo de mudanças e a causa exata da litíase renal, há dados estatísticos que revelam um grande alerta para a sociedade. Vivemos em um ambiente em que, devido a correria diária, somos continuamente bombardeados pelo apelo ao consumo de alimentos prontos, de rápida execução e que nos economizam um tempo precioso para realização das atividades cotidianas. Porém, esta praticidade pode ser perigosa e causar diversos problemas que futuramente tomarão este tempo “poupado”.

Na contramão dessa modernização, surgem movimentos que buscam desacelerar nossa atividade e retornar a um estilo de vida mais saudável, com consumo mais consciente de alimentos naturais. No entanto, o impacto destes movimentos em nossa sociedade ainda é pouco sentido e a tendência atual dessa doença é de aumento gradativo em sua incidência. Isto é visto por médicos na prática ambulatorial, já que nefrologistas pediátricos estão atendendo um número maior de crianças encaminhadas por esta queixa, anteriormente pouco comum.

Se já havia motivos suficientes para combater o avanço desenfreado do consumo de produtos industrializados na alimentação infantil, considerando os riscos relativos ao aparecimento da obesidade infantil e hipertensão arterial, fica mais um alerta! Estamos vivendo uma verdadeira epidemia de pedras nos rins e, embora esta doença seja multifatorial, com características genéticas e ambientais, como o sedentarismo, também relacionado com a vida moderna, sem dúvida, a alimentação inadequada é um dos grandes responsáveis por essa evolução. Portanto, precisamos estabelecer uma rotina alimentar saudável para nossas crianças, substituir bebidas açucaradas como sucos de caixinha e refrigerantes, incentivando um maior consumo de água e eliminar o excesso de sódio da dieta. Com isso, provavelmente reduziremos o impacto da nefrolitíase na infância.

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Relatores:
Dr Flavio de Oliveira Ihara
Dra Maria Luiza Dautro Moreira do Val
Membros do Departamento Científico de Nefrologia da SPSP.

Publicado em 10/02/2017.
photo credit: Tatyana Gladskikh | Dreamstime.com

Este blog não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente o médico pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.

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Author: SPSP

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