O que é a mentira para a criança e como lidar com essas situações?

Todos nós temos a ideia de que as crianças não mentem, são puras, verdadeiras, sinceras, falam o que realmente pensam e sentem. No entanto, quem convive com elas sabe que, em algum momento da infância, elas começam a mentir e a tentar enganar os adultos.

Em qual idade e por que isto acontece? Será que a criança não está sendo educada corretamente? Ou será que faz parte do desenvolvimento infantil, uma fase que vai passar? Será que pode indicar algum problema na personalidade? Vai persistir na vida adulta? Quando se deve intervir? São perguntas que os pais podem se fazer.

É no decorrer dos primeiros meses de vida que a relação mãe/bebê, pai/bebê vai se estabelecer, por meio dos cuidados imediatos referentes à fome, dor, aconchego e carinho. Nesses primeiros meses, o bebê não se diferencia do adulto. Nesta fase, é como se o seio ou mamadeira fizessem parte dele, satisfazendo suas necessidades. Em seguida, passa para uma fase de descoberta de seu próprio corpo (autoerotismo), para depois, oferecer-se como objeto de prazer para o outro, por exemplo, quando oferece o pezinho para que a mãe beije. Nesta fase, começa a diferenciar entre ele e o outro, entre seu corpo e o do outro.

Para ocorrer a diferenciação da mente do bebê e a do outro, a mãe (ou cuidador) tem que supor que nesse corpo do bebê haja uma pessoa diferente dela mesma, com seus próprios desejos e vontades. Assim, esse corpo será colocado em uma perspectiva simbólica, possibilitando o início da autonomia psicológica dos pais. Assim, com uma estrutura familiar suficientemente boa (função materna e paterna satisfatórias), a criança poderá ir gradativamente estruturando sua subjetividade (ser psiquicamente independente dos pais).

Ao redor de 18 meses de vida, a criança começa a fase de simbolização, como se vê nas brincadeiras de faz de conta. Nessa fase, a mentira pode fazer parte da investigação, por parte da criança, se os adultos e outras crianças podem ou não ler seus pensamentos e se ela é mesmo um ser psiquicamente independente. Essa fase faz parte do desenvolvimento emocional normal da criança.

Após os 18 meses de vida, com a noção eu/não-eu mais solidificada, a mentira pode começar a ter o objetivo de enganar o outro, como uma brincadeira que lhe dá prazer.

Por volta de dois a quatro anos de idade, a criança adquire a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa e supor o que o outro possa estar sentindo ou pensando. Nesse caso, a mentira pode significar uma forma de enganar ou provocar, em geral para obter atenção ou vantagens, como por exemplo, provocar “culpa” ou “pena” no outro, para obter vantagens ou atenção, como nas crises de birra.

Com o crescimento e desenvolvimento, a mentira pode adquirir outros significados mais elaborados e outras finalidades, como para obter alguma vantagem, escapar de algum castigo e punição, ou mesmo fugir de alguma obrigação que não deseja enfrentar ou realizar – por exemplo, fingir que está doente para não ir à escola. Da mesma forma, é comum o adolescente mentir para pais e colegas com objetivos diversos.

Portanto, de acordo com a faixa etária da criança, dinâmica familiar, fase da vida, características de personalidade e conforme o ambiente em que vive, a mentira pode ter diversos significados, desde uma simples brincadeira, como no chamado “Dia da Mentira”, até em situações mais sérias, que merecem atenção e entendimento, constituindo sintoma a ser investigado mais profundamente.

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Relatora:
Dra. Sonia Baldini

Departamento Científico de Saúde Mental da SPSP.

Publicado em 01/04/2017.
photo credit: Gilmanshin | Pixabay.com

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